segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ÍNDICE (SURFE E LEIA NA ORDEM CORRETA)

O blog é uma ferramenta fantástica para acompanhar uma aventura em tempo real, mas depois que ela passou, fica bastante difícil para as pessoas que não acompanharam na hora, lerem e entenderem a seqüência de acontecimentos. Por isso, decidi escreve os links diretos para cada capítulo, divididos em partes. A parte I conta a preparação da viagem, que começou em julho de 2010. Cada post corresponde a um período que variou de 5 à 15 dias, as vezes mais ou as vezes menos. A parte II corresponde a ação imediata da viagem, “uma semana antes do embarque”, e os momentos de trabalho antes do navio deixar o porto em Ushuaia, que são bastante intensos. A parte III corresponde a viagem em si, com a travessia do Drake (Antarctica Express) e depois cada uma das viagens clássicas, com grupos diferentes de passageiros. Durante essa etapa, eu consegui atualizar o blog a cada 5-6 dias. Portanto é importante ler na seqüência certa.  Após cada leitura, recomendo clicar sobre o botão de “retornar” e avance manualmente para o próximo capítulo. Assim você poderá entender toda a sequência.

Boa navegação e boa leitura.
André Belém

Parte I – Preparação

  1. Mais uma vez
  2. Um sonho em branco
  3. A primeira luz
  4. Dia dos Pais (120 dias para a viagem)
  5. Frio aqui, gelo por lá
  6. Mais uma imagem
  7. 100 dias para Southbound
  8. A fronteira dos 90 dias
  9. Pensando no fim do mundo
  10. De olho no gelo
  11. Um dia em branco
  12. Ensolarada Segunda-feira
  13. Os primeiros pinguins
  14. Ainda sobre os pinguins
  15. A fronteira dos 50 dias
  16. Em movimento
  17. Visitantes e companheiros
  18. O mundo inteiro conectado
  19. tão perto, tão longe
  20. Um dia após o outro
  21. Ensolarado Domingo
  22. O limite do tempo
  23. Onde está o navio ?
  24. Testando o posting por email
  25. Apenas 12 dias


Parte II – Ação Imediata

  1. D-7 (7 dias para embarcar)
  2. D-5 (5 dias para embarcar)
  3. D-2 (2 dias para embarcar)
  4. O dia D (embarque !!)
  5. 06/12 Rumo 180 São Paulo-> Santiago-> Punta
  6. 07/12 Em Punta Arenas com o pé esquerdo
  7. 08/12 Rumo 180 pela estrada em Ushuaia
  8. 09/12 Trabalho, Work, Arbeit, Trabajo
  9. 10/12 Deixando a civilização finalmente


Parte III – A Viagem

  1. de 10/12 à 13/12 Antarctica Express - através do Drake
  2. de 14/12 à 19/12 Classica Antarctica 01
  3. 19/12 Presos em Frei
  4. de 20/12 à 24/12 Classica Antarctica 02
  5. de 24/12 à 29/12 Classica Antártica 03 Natal Natal
  6. 30/12 e mais um dia
  7. 31/12 again again again em Frei
  8. 01/01/2011 O primeiro de muitos dias
  9. de 03/01 à 08/01 Classica Antarctica 05
  10. de 08/01 à 13/01 Classica Antarctica 06
  11. de 13/01 à 18/01 a última Classica Antarctica
  12. de 19/01 à 20/01 de volta ao Brasil (THE END)



quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

19-20/01 de volta ao Brasil (REPOST)


19/01 - Punta Arenas e amigos

Foi difícil dormir em uma cama sem barulho e sem o movimento do barco. A Antarctica XXi tem um pequeno apartamento no centro, com 3 quartos, e fiquei por ali. Um silêncio duro que me tirou o sono por várias horas. Acordei as 5hs da manhã absolutamente sem sono mas me recusei a levantar por razões óbvias. Lá pelas 8hs saí da cama, espalhei minhas coisas pela cama e arrumei uma pequena mochila para um tour na zona franca de Punta Arenas, parada obrigatória para os últimos presentes de Natal que eu devia levar para o Brasil.

Peguei um táxi na avenida central e segui para a Zona Franca, ainda meio adormecida e praticamente deserta. Afinal, tinham sido 10 dias de greve geral na cidade e o povo ainda não estava acostumado com o movimento. Foi difícil encontrar um café aberto mas consegui comer uma torta e tomar um nescafé horroroso que os puntarenenses adoram (argh!). Tive que esperar no shopping da Zona Franca por umas horas ainda pois o comércio abre das 10h30-13h e das 15h-19h (como é que eles conseguem fazer comércio assim ?!?!). Bati perna por ali, comprei um belíssimo presente de Natal para a Mari (uma câmera rosa - assim salvo a minha das investidas dela haha) e mais alguns itens de desejo meu. Na volta arrisquei pegar um ônibus, que não é muito diferente de um táxi em termos de preço, mas viajei tranquilo e confortável até o centro de novo. Cheguei no escritório as 11h30 com fome mas ainda com coisas para fazer. Papelada, computador, entrega e organização das roupas, e ainda fui almoçar com Brigitte, nossa gerente de vendas, e bater um papo descontraído. A parte mais importante da viagem para eles é justamente o debriefing que fazemos e as sugestões para melhoria das operações no próximo ano.

Voltamos para o escritório, mais papelada, mais trabalho e entre as pausas atualizei meu facebook com algumas fotos indescritiveis que chamei de "Antarctic Insanity" - como operar em hardcore mode, com as fotos que Claudio tirou na praia com 80 km/h de vento, ondas e guias ensopados, na manobra arriscada de embarque do último grupo. Uma comédia ! Fiquei até ads 18 hs no escritório, quando encerrei oficialmente meu contrato e minhas atribuições na AXXI e fui bater perna na cidade para aproveitar o por de sol (que aqui dura até as 9 da noite no verão). Andei um pouco e decidi tomar um café em uma chocolateria da cidade. Entrei, peguei uma mesa e o cardápio, e quando olhei ao redor tomei um susto: Eduardo Secchi e Luciano, dois colegas de universidade, de mais de 20 anos atrás (!) sentados tomando café ao meu lado. Que mundinho pequeno. Eles estavam indo para a Antártica no vôo da FAB que abastece a estação brasileira Com. Ferraz. Um reencontro e tanto. Conversamos por mais de uma hora, trocando figurinhas, já que ambos trabalham com baleias e eu tinha algumas fotos e dados importantes delas. Essa foi realmente uma surpresa inesperada.


De protetor novo no dedo (apelidado carinhosamente de "Goldfinger") e o colorido de Punta Arenas no fim de uma típica tarde de verão.

Quando saímos da cafeteria, já era mais de 8h30 e o sol se punha timidamente atrás das montanhas a oeste de Punta Arenas, dando um brilho e cor todo especial aos telhados coloridos da cidade. Ainda passei em uma loja de produtos médicos para comprar um novo protetor para o dedo que estava incomodando um pouco. Fui para casa tomar um banho e relaxar pois ainda tinha a mala para reorganizar para a viagem de retorno. Mas não tive a chance. O telefone tocou e mais uma surpresa veio: Mariana (lindo nome, né ?), uma amiga muito querida também estava na cidade embarcando para a Antártica pelo PROANTAR e marcamos com todo o povo da expedição de ir em um restaurante beber e jogar conversa fora. Fomos ao "La Luña" tomar pisco e dar risadas. Muito legal reencontrar o povo, fofocar, matar a saudades. Mariana esteve comigo em 2007 na EACF (veja em http://diarioantartico2007.blogspot.com), e desde então não tinhamos nos visto. Muita sorte minha ter dois reencontros em um mesmo dia, no finzinho do mundo ! Adorei !


Mari e eu no La Luña. Reencontro surpresa que deixou mais saudades.

Fui dormir contente e mais relaxado (depois de um pisco, é claro !) para dar sequência a viagem de volta.


20/01 - Entre Check-in e Check-out

O despertador tocou pontualmente as 8hs e eu tinha praticamente tudo organizado. Precisei de 15 minutos para levantar, fechar a mochila e trocar de roupa. Brigitte acordou logo em seguida e ficamos aguardando Claudio com o caminhão para ir ao aeroporto. Cheguei ali as 9h30 com uma fila gigante no checkin da LAN, mas que em meia hora tinha se dissipado. Brigitte e Claudio foram transportando caixas e caixas do depósito da empresa no aeroporto enquanto eu mofava na fila, e quando tudo terminou eu já tinha feito meu check-in. Despedidas e mais despedidas, embarquei para Santiago na hora marcada, ouvingo Libertango no IPod e curtindo a viagem. O avião estava cheio e eu espremido entre duas poltronas, escrevendo encolhido com 4 dedos (e um quebrado ha ha), mas tranquilo em relação a viagem.

Santiago estava quente - 30 graus ! e mesmo dentro do aeroporto o bafo que vinha de fora intimidava a tirar todas as possíveis camadas de roupa. Eu ainda estou uniformizado de Antarctica XXI, pois são as únicas roupas limpas que eu ainda tinha. Fui para o Gatsby comer uma salada leve, tomar um café e tals, e papear um pouco na net. Não tem muito o que fazer a não ser esperar.

Bye Bye Neverland, bye bye Chile, e que venha 2011 que começa para mim agora !
--REPOSTAGEM--
21/01 00h - minha saga no aeroporto de Santiago foi quase que cinematográfica. A TAM/LAN mudou 4 (quatro!) vezes de portão de embarque, passageiros irritados, malas extraviadas, um caos total. Parece que o vôo foi cancelado e organizaram outro vôo mas não deram motivos nem explicações. Enfim - um vôo complicado. Cheguei em Guarulhos com atraso de 20 minutos e um calor úmido que eu não estava acostumado. O aeroporto só opera com uma companhia de taxi (Guarucoop) que tem preços abusivos mas não há uma segunda opção nesse horário. Resultado - peguei um táxi para Santos deixando dim-dim de pelo menos uma semana dura de trabalho, com um motorista péssimo, tossindo e espirrando, que dirigia mal a beça e não sabia o caminho para Santos. A descomplicação na alfândega (sem filas e sem perguntas) foi compensada pelas duas horas e meia de viagem SEM TRÂNSITO para Santos. O motorista só aumentou a velocidade do carro quando eu reclamei pela terceira vez.
Mas enfim - lar doce lar. Lili fez uma festa enorme, nem acreditando que eu estava em casa, e minha mãe me recebeu com uma saladinha caseira ótima. A Mari ainda está no Rio mas chega no sábado. E eu....bem...hoje o programa é cama (dormir), piscina (de tarde), e médico (para ver o dedo). 

Ainda assim, fecho os olhos e me lembro de tudo nitidamente: Plenneau, Charcot, Paradise, Lockroy, Deception, gelo, focas, pinguins, e o gosto salgado e gelado da Antártica. Eu sei que Neverland continua lá, e sei que para lá eu vou voltar.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

13/01 à 18/01 - A última Classica Antarctica (07)

13/01 - "Fildes Radio atento no canal 10"


Estranho ! acordei as 6hs e o motor do barco indicava marcha. Mas deveriamos ter parado em Fildes (a baía Maxwell, em frente a estação Frei) logo no meio da madrugada. Mas por que o motor continuava ligado ? Troquei de roupa e fui logo para a Biblioteca, que estava em um bom ângulo de visada com a estação Frei. Assim que cheguei percebi o porque dos motores. O vento norte castigava a ilha Rei George e fazia com que o navio não ficasse parado muito tempo. Estávamos com motores ligados para auxiliar a âncora a repousar no leito da baía. Além de nós no "Ocean Nova", também estava ancorado o "Big Fish", bem próximo da gente pelo través de popa. Consegui me conectar logo cedo e falie com a minha mãe. Saudades de casa ! E logo veio o chamado de Mariano para o café e briefing do dia. um dia que prometia ser longo. A previsão meteorológica local, emitida por Fildes Radio no canal 10, falava em ventos de 45 nós pela tarde ! (90 km/h).


O sul do Chile estavaem greve geral por causa do aumento de 16% no gás, fonte essencial de energia para a maioria da população. Com o bloqueio de acessos a Punta Arenas, até o aeroporyo ficava de fora. Com isso, os passageiros novos estavam presos na cidade e alguns, dormiam de forma improvisada em um ônibus da empresa. Dessa forma, e baseado nesses fatos graves, rodamos uma operação curta: o vôo viria logo cedo pela manhã.


Fizemos o briefing e o que ficou decidido era que Adrian desse uma palestra sobre história antártica, enquanto que os outros juntavam os últimos afazeres aqui. Fiquei gravando Pen drives que os passageiros iriam receber. Lá pelas 11hs veio o primeiro aviso - avião decolou de Punta Arenas com os passageiros e "sem botas" a prova d'água. As botas estavam vindo como bagagem e isso significava que teriamos que recebê-los e ainda por cima fazer a prova de botas.


Quando coloquei a cara para fora do navio, no deck 4, pela primeira vez, quase tomei um susto. O vento devia estar na casa dos 35 nós (70 km/h) com rajadas de mais de 80 km/h ! Mas se o avião estava vindo, isso significava que a operação de desembarque era eminente. Engoli alguma comida, coloquei o impermeável (o sapão), casaco, gorro, luvas e me proteji o máximo possível. Assim que os botes baixaram na água, fomos todos para a gangway (a saída do barco) para fazer uma carga de bagagens. As ondas lambiam a Gangway de uma forma que era impossível não se molhar. Carregamos 2 zodiacs e no terceiro, eu e Miguel fomos para a praia. A ida foi animal ! surfando a favor do vento com 40 nós (80 km/h) e ainda mais a velocidade do zodiac. Impressionante ! Quando chegamos na praia, deu para ver que ia ser bastante dificil a operação. As ondas estavam com pelo menos 1 metro de altura na praia, o que significava uma arrebentação que molharia todos bem rapidamente.



Transporte de bagagens do navio para a praia. Adrenalina pura ! (foto tirada de costas, deitado na frente do barco e em cima das bagagens).


Conseguimos desembarcar todos os passageiros, algums bem molhados e outros por sorte nem tanto. Eu já estava encharcado logo no segundo bote. Mas tinha que aguentar. Quando todos estavam por ali, recebemos a notícia que o avião já havia chegado e que deveriamos começar a subir a ladeira com os passageiros antigos. Foi o que fizemos. Minha roupa pesava meia tonelada de tanta água que eu havia recebido ! Eram 20 minutos de caminhada pesada ladeira acima. Passageiros trocados, o que se foi deixou lembranças e o que chega nos trás preocupações. Fizemos as provas de bota, na hosteria da base chilena, ao lado da pista, e logo a seguir começamos a descer. Isso eram já 15 horas ! e deviamos acelerar o passo pois a previsão era de ser bem pior de tarde.


Quando chegamos na praia, distribuimos os coletes salva-vidas e eu fiz um breve briefing de segurança para todos, como deveriam subir no barco, etc. Um a um, os zodiacs chegavam para os pasasgeiros (operamos com 3), e com full balast (peso na frente), conseguiram avançar um pouco. Mas cada vez que chegavam, eu tinha que entrar na água até o peito para segurar o barco. É óbvio que o sapão não segurou e em pouco tempo eu estava com as pernas do sapão cheias de água bem gelada. Foi dificil ! e o vento continuava aumentando. Curiosamente, quando eu estava ao lado da caminhonete, conversando com Alex e Claudio, a água que escorria pelo meu colete ativou a trava e ele fez !bum! Que droga. Colete aberto, eu sem colete, camera sem bateria, rádio debaixo d'água e sapão cheio de água. O que mais faltava ?


Bem, o último boto veio e ainda tinha alguma mochila de mão para levar e nós também ! Fechamos tudo com uma lona e veio Alex, Miguel e eu deitado na lona azul sobre as bagagnes, para evitar que se molhem. Que viagem punk ! além de completamente enxarcado, eu ainda consegui tomar um banho para o briefing de segurança.


Corri com tudo, fiz o brieging, e depois coquetel de boas vindas com apenas alguns sobreviventes. Estávamos atravessando o Bransfield e a maioria dos passageiros já estavam vomitando (haha)!. Enquanto Jorge enchia as taças de champagne no bar, eu preparava o salão para a fala de Mariano, quando uma onda mais forte jogou todas as taças cheias no chão. Que estrago ! Brincamos um pouco com os bravos sobreviventes no Lounge e veio o chamado tão esperado - JANTA !! Mas o salão de jantar também estava praticamente vazio. Cerca de 40 dos 63 passageiros estavam nocauteados dentro de suas cabines. Sobrou para o Dr. Alvaro que além de fazer visitas nas cabines dos mortos-vivos, estava ele também bastante enjoado. Eu aproveitei que estava com fome e nenhum sinal de enjôo, e me deliciei com uma sopinha quente, salmão defumado e um excelente peixe grelhado. Ainda comi duas sobremesas (pudim de côco) ! Afinal, comida era o que não faltava. O vento estava castigando o navio e o espetáculo lá fora era impressionante. Centenas (para não dizer pelo menos mil !) de Petréis do Cabo voavam na esteira do barco, junto com petréis gigantes e outros pequenos pássaros. O pessoal do Projeto Albatroz ia gostar de ver isso !



Na imagem são apenas pontinhos, mas dá para perceber que o céu estava forrado deles. Petréis do Cabo, na sua maioria.


Ainda perambulei pelo navio mas só haviam 4 pessoas na biblioteca e nenhuma no lounge. Era realmente um navio fantasma. Fui dormir também, afinal, amanhã estaremos em Mikkelsem Harbour.


14/01 - Mikkelsen Harbour & Spert Island


Não gosto muito de Mikkelsen, já disse isso, mas o dia estava calmo, sem vento e com sol na pequena e pacata ilhota ao sul de Trinity. Me chamou a atenção a quantidade cada vez menor de pinguins na colônia. De todos os ninhos por ali, apenas dois estavam com filhotes, e a maioria abandonada ou apenas com pinguins descansando. Pelo visto o impacto do verão anômalo sobre Mikkelsen foi grande. Poucas skuas sobrevoavam a área e algumas focas descansavam na praia. Fizemos o programa clássico parando atrás da ilha e cruzando a mesma pelo topo. Foi uma manhã tranquila de 2h30 de passeio pela ilha, sem muito o que fazer, apenas curtir o silêncio quebrado pelos barulhentos pinguins. Na saída, um imenso veleiro de bandeira britânica parou por ali, mas não consegui ver o nome. O almoço foi servido pontualmente as 12h30 (que bom ! estava com fome já).



"Ocean Nova" ancorado em Mikkelsen e um veleiro inglês visitando a ilha.


Spert é uma ilha rochosa na ponta oeste de Trinity Island, apenas duas horas de navegação a partir de Mikkelsen. Mal terminou o almoço já estávamos ancorados em Spert, com lançamento dos botes para as 14h30. Peguei meu velho e bom No. 1, apelidado carinhosamente de "Fedorento" pela quantidade de fumaça que solta quando está frio, e carreguei com 8 passageiros. Vesti meu gorro de pinguim da sorte e partimos para os canais estreitos de Spert. O dia estava magnífico, sem vento, céu azul e apesar do swell cadenciado dentro dos canais, foi tranquilo atravessá-los, bem diferente da última vez onde as ondas chegavam a assustar um pouco. Atravessamos para o lado de mar aberto de Spert e os penhascos magníficos e imponentes mostravam a força daquele lugar, entre mar e gelo. Na costa oeste de Spert há uma caverna com uns 15 metros de altura, atravessada pelo mar, e nos metemos dentro dela com um misto de espanto e satisfação. Do outro lado, há uma baía com icebergs gigantes descansando como guardas na saída da caverna. Entramos por outro canal estreito, onde quase perdi a hélice em uma pedra rasa (quase!) e continuamos depois por uma baía com mais penhascos e pedaços de gelo flutuante. Em um deles encontramos duas focas leopardos descansando.



Os canais e penhascos de Spert Island e a caverna !


Começamos a voltar para o navio dando a volta completa na ilha. E para nossa surpresa, no caminho de volta, haviam duas baleias jubarte se alimentando de uma massa enorme de krill. Havia tanto krill na água que facilmente podiamos pegá-los com a mão ao redor do bote. Passamos uns 20 minutos tentando nos aproximar das baleias, junto com os outros botes, até que em um momento decidi parar o meu bem em cima de uma mancha de krill para ver o que iria acontecer. Desliguei o motor e não precisamos esperar mais do que dois minutos até que aqueles dois gigantes viessem em nossa direção. Primeiro, subiram a uns 10 metros do barco com a boca aberta engolindo água e krill. Depois, passaram a menos de 2 metros debaixo do barco. As nadadeiras brancas da baleia, em contraste com o azul turquesa daquela água transparente era um espetáculo simplesmente magnífico. Não tirei foto alguma ! preferi filmar. Consegui extrair umas fotos do filme para postar no blog. Que show ! Infelizmente, a hora que decidi colocar a câmera debaixo d'água, a baleia já tinha passado e subia para respirar uns 10 metros a frente do barco. Mas valeu o dia inteiro aquela cena.



A mancha branca na foto é a nadadeira da baleia passando bem debaixo do nosso barco.


Voltamos todos meio atordoados para o navio, felizes de ter participado daquele espetáculo da natureza. A janta foi tranquila e fui para a cama logo a seguir. Estava com sono e queria apenas dormir um pouco. O vento, que tinha dado uma trégua, começou a soprar forte de sudeste, com 35 nós (70 km/h), apesar do céu azul sem nuvens. Estavamos rumando para o sul, para o canal de Lemaire. Hoje decidi também tirar a contenção do dedo que ainda está grosso, um pouco inchado, e com movimento reduzido. Vou dormir apenas com uma proteção para a mão, para dar um descanso. Tomara que eu sonhe com alguma coisa boa. Estou com saudades de casa - faltam apenas 4 dias para essa aventura acabar (isso se o avião não atrasar)!


15/01 - Última vez em Plennau


Acordamos ancorados ao norte da passagem de Lemaire, por volta das 7h00. Eu tinha colocado o relógio para tocar as 6h30, para ver um pouco da paisagem matutina, mas a preguiça me prendeu na cama. Só levantei com o chamado de Mariano para o briefing e café. Logo de manhã, um pequeno susto. Uma passageira caiu na escada de acesso ao Lounge e abriu um bonito corte no supercílio. Trabalho em dobro para o doutor logo de manhã cedo, mas sem grandes traumas para ela. O canal de Lemaire estava cheio: primeiro o "Fram" estava ancorado no meio do canal e logo a nossa frente ia o "Akademik Sergey Valinov" (se é assim que se escreve pois estava em russo no casco!). Logo depois da travessia, acoramos ao largo das Ilhas Argentinas, para uma visita matutina a estação Verdnasky e a Wordie's House. Essa última visita era muito especial. Wordie foi um pesquisador da viagem de Shackleton em 1911, um do que ficaram presos na ilha Elefante por 10 meses esperando resgate depois do naufrágio do "Endurance". Mesmo depois do resgate, Wordie foi um dos poucos que continuou vindo à Antártica, realizando suas pesquisas em meteorologia. Uma pequena base inglesa nas ilhas Argentinas foi completamente restaurada, nos mesmos padrões da época (1940-1950). A filha de Wordie, Elizabeth, já uma senhora com seus quase 80 anos, estava a bordo. Para nós guias era uma honra e para ela, uma aventura a mais, conhecer o local onde seu pai trabalhou na Antártica.



Uma foca dorminhoca com a estação Verdnasky ao fundo, e a casa de Wordie.


Dividimos os passageiros em dois grupos, o primeiro para Verdnasky e o segundo para Wordie's House. Fiquei primeiro na estação, carimbando passaportes e tomando vodka, e depois peguei um zodiac com um pequeno grupo para um tour pelos canais entre as ilhas até a Wordie's House. Magnífico ! Várias focas caranguejeiras estavam dormindo pelas enseadas congeladas dos canais. No meio de uma dessas enseadas, encontramos também o "Spirit of Sidney", um veleiro famoso por trazer crianças em idade escolar para a Antártica. É praticamente um navio-escola (salvo as devidas proporções de um veleiro). A casa de Wordie é impressionante, pois guarda as mesmas características de 60 anos atrás, além de toda a tralha usada para o trabalho cientifico. Não preciso dizer o quão emocionada ficou a filha dele (!). Voltamos a bordo por volta das 12hs, com muita fome ! e tive a grata surpresa de saber que só sairiamos de novo as 15h30, e que haveriam palestras pela tarde, Adrian e Miguel. Então, consegui mais uma vez "ter uma reunião com Amundsen", por pelo menos uma hora. Nesse meio tempo o barco se movimentou para norte, até a saída sul do Lemaire, perto das ilhas Plenneau.


A tarde pegamos nossos botes, cada um com 9 passageiros, e saímos pelas ilhas Plenneau, em meio a gigantes blocos de gelo parados por ali. Em cada iceberg acessível pela água, havia pelo menos uma dúzia de focas caranguejeiras. Contamos mais de 100 em um espaço de 15 minutos. Pelo visto a comida era farta pois estavam com a barriga bem cheia, dormindo sobre os blocos. Tive o prazer de ter Elizabeth, a filha de Wordie, em meu barco, e ela fez questão de participar de todo o passeio. Fomos até Port Charcot, um pouco mais a oeste, onde ela ficou maravilhada com o "F" gravado na pedra pela tripulação do "François", que invernou ali a mais de 100 anos atrás.



Focas caranguejeiras dorminhocas sobre um pequeno iceberg em Plenneau.


Voltamos para o barco as 18hs e saí correndo para preparar a palestra da noite, uma recapitulação diária, enquanto que Mariano e outros faziam transporte de carga com outro barco da Quark por ali. Fiquei até as 19hs no Lounge, dando a palestra, até que desci com Adrian e o doutor para ajudar na descarga de mantimentos, e só consegui ir jantar as 20hs. Que canseira ! E assim terminou mais um dia na Antártica - filme no Lounge, um tour pelo barco para ver se estava tudo em ordem, e cama. Amanhã vamos ao norte, para Neko e Dorian Bay, e o tempo ?! bem...3 dias para o fim.



Por-de-sol em Plenneau e as magníficas montanhas do estreito de Penola.


16/01 - Neko Harbour e "bye bye" Dorian Bay


Noite péssima ! não sei porque mas não dormi bem. Só consegui pegar no sono por volta das 2hs quando o barco ligou os motores e começou a navegar em direção a peninsula. Nesse meio tempo fiquei rolando na cama, brigando um pouco com meus pensamentos, metade no Brasil, metade aqui. Levantei as 7hs com o barco ainda em movimento, mas já dentro da baía Andvord, onde está Neko harbour. Programa clássico: desembarque continental, foto do grupo, e subida à geleira. Fiquei atrás de Alex, abrindo caminho na trilha de neve, pois Daniel estava no barco com fortes dores musculares nas costas. Aparentemente era uma inflamação muscular causada por esforço, quando estávamos carregando as caixas de resgate para um dos botes. Parei no meio da subida, para controlar o fluxo, e fiquei ali um pouco aproveitando a vista magnifica da baía.



Neko Harbour (bye bye!) com o "Ocean Nova" na mão.


O tempo estava fechado e com um pouco de vento, mas nada que comprometesse o desembarque. Ao longe, várias baleias Minke e uma jubarte solitária nadavam ao redor dos blocos de gelo. Uma quantidade bem grande de pinguins Gentoos nadava na praia, curiosos com o movimento dos botes. Desci um pouco antes das 11hs para a praia, para pilotar um dos botes. Como a caminhada terminou mais cedo do que de costume, fizemos alguns cruzeiros rápidos pela baía, e por sorte, ficamos observando bastante tempo uma das jubartes que nadava por ali, bem como várias minkes ao redor do bote. Espetáculo encerrado, rumamos para o confortável calor do barco e levantamos âncora, rumo a Dorian Bay.



Super navio de cruzeiro em Neumeyer e Alex e eu (meu amigo catalão) em Damoy Point.


Navegamos pelo canal de Neumeyer rumo a Dorian bem depois do almoço, e no meio do canal encontramos um imenso navio de turismo, desses com umas 3 mil pessoas a bordo (imenso mesmo!), mas pelas dimensões do navio, imagino que não deva haver desembarques, ou seja, é só cruzeiro mesmo. Enfim...seguimos para Dorian onde largamos âncora por volta das 14h30. Fui designado para o transporte de passageiros para a praia e pude então ver como é difícil a entrada de Dorian, usada pelo "Paratii" e outros veleiros. O espaço entre as pedras para passar o barco não é maior que 20 metros, e a baía rasa é cheia de pedras angulares. Com todo o cuidado, consegui parar o barco próximo a uma pedra onde o "Paratii" normalmente ancora. Fizemos o circuito clássico de Dorian, com uma caminhada até o topo da pinguineira (Damoy Point) até as 17hs. Voltamos para o barco e nem tirei a roupa pois, como surpresa, dirigimos o navio para Port Lockeroy, para um desembarque rápido (oba!). Como Dorian é tão perto de Lockroy, fui com Vladmir de bote mesmo enquanto o navio se reposicionava. Delícia ! Chegamos cedo, conversamos com as meninas de Lockroy, e logo depois fui às compras: lembrancinhas de última hora, 3 cartas náuticas magníficas, mais canecas para a minha coleção, e um livro muito especial - cozinha antártica ! Pratos feitos de pinguins, focas e baleias (só para diversão, é claro). Fiquei a cargo de receber o grupo dentro do museu e cuidar dos passaportes. Terminado essa fase, voltamos para navio as 19h30 para um churrasco antártico, dessa vez com as meninas de Lockroy e os dois carpinteiros da Britsh Antarctic Heritage Trusth como convidados. Mas ainda em Lockroy, vi um mastro conhecido despontando atrás da pequena ilhota. Era o "Paratii" que descansava nas águas tranquilas atrás da ilha. Chamei pelo rádio no canal 16, e Igor prontamente atendeu. Conversamos rapidamente e marquei uma visita ao barco. Quando o churrasco avançou para o bar, no Lounge, peguei um bote e fui de encontro ao "Paratii". Que emoção. Lá conheci o Igor pessoalmente, e o pessoal da PL Divers que estava a bordo. Mundinho pequeno esse. Infelizmente só pude conversar rapidamente mesmo pois já me chamavam no rádio para fazer o transporte dos dois carpinteiros de volta para Lockroy. Mesmo assim, valeu a visita e a emoção de colocar os pés no convés do "Paratii".



As "meninas" de Lockroy (da esquerda para a direita, Hannele, Nikki, Ylva & Hen), e com Igor a bordo do "Paratii". Noite memorável.


Voltei para o barco e a festa rolou até a 1h30, quando as meninas foram levadas as pressas para Lockroy, já com o "Ocean Nova" em movimento. Afinal, estavamos super atrasados no programa para chegar até as Sheetlands. Fui dormir com o ronco pesado do motor do barco, a toda velocidade rumo norte. Bye bye Dorian, bye bye Lockroy e até logo Paratii.



O "Ocean Nova" em Lockroy quando eu estava voltando do "Paratii".


17/01 - Last day, Last Deception


Dormi um sono pesado até as 7h30, e o susto foi grande quando acordei com o chamado de Mariano dando conta do café da manhã as 8hs (tão tarde!). Quando fui para o salão de jantar e vi o mapa, entendi o porque do chamado tardio. Estavamos ao largo da ilha Trinity, ainda dentro do Canal de Gerlache, milhas e milhas de Deception, nosso próximo destino. Iria ser uma manhã longa. Mas tinhamos zero de vento e mar sem ondas, e um sol fraco mas constante. Faziamos 11 nós (22 km/h mais ou menos), o que é uma boa velocidade para este barco. Mariano me pediu para dar duas palestras sobre mudanças climáticas, uma em espanhol as 9h30 e outra em inglês as 11hs. Manhã tranquila, palestras dadas, e o almoço veio sem grandes novidades, com Deception muito mais próxima agora. Lançamos âncora em Pendulum Cove, dentro de Deception, as 14h30, com ventos de 25 nós (50 km/h) e maré baixa. Me encarreguei de um grupo e caminhamos pela praia onde alguns poucos pinguíns nos recepcionaram, além de duas focas dorminhocas que só levantaram a cabeça na nossa passagem. Ficamos por ali só 1 hora, pois alguns passageiros foram "nadar" nas águas "menos frias" de Deception, e tinhamos que levá-los rápido para bordo do barco. Levantamos âncora novamente as 16 hs, rumo a Meia Lua, em Livingston. Bye Bye, Deception.



Um pinguin de barbicho (Chinstrap) xereta em Deception.


O tempo estava ensolarado mas com muito vento, e por causa disso as ondas não deram muita trégua. Com isso, uma parte dos passageiros seguiu nocauteada dentro das cabines. Eu tomei banho rapidamente, mudei de roupa, coloquei a gravata de pinguim (especial para essas ocasiões) e subi para o Lounge para o Recap final (recapitulação da viagem), despedidas e o concurso fotográfico. Ao final fomos para a janta e as 20h30 estavamos brigando com as ondas e o vento na frente da ilha Half Moon, em Livingston. Decidimos entrar no canal estreito entre a ilha e o glacier para se proteger, baixamos dois botes (mesmo com mar grosso !) e desembarcamos em uma praia cheia de pedras da ilha Half Moon. O passeio seria curto, pois as 22hs, pelas regras da IAATO, deveriamos sair da ilha. No caminho, encontramos um leão marinho descansando na praia, e no meio dos pinguins de barbicha (Chinstrap), encontramos um pinguim rei descansado - raríssimo, pois Livingston está muito ao sul para essa espécie, que costuma ter colonias nas ilhas subantárticas, como a Geórgia do Sul. Fantástico ! Os pinguins estavam com vários filhotes grandes pelos ninhos, e a colônia bastante ativa, com subidas e descidas de pinguins pela praia agora praticamente sem neve, comparado com as últimas vezes que estivemos por aqui.



O raríssimo pinguin-rei descansando em Half Moon.


Voltamos a bordo as 22h30, cansados e com sono. Ainda dei uma passada no bar para jogar conversa fora mas fui para a cama logo em seguida. Nem arrumei minha mala. Decidi dormir e ver isso na manhã seguinte.


18/01 - Último Dia - bye bye Antártica


Parece que a Antártica não quer que eu vá. Acordei as 6h30 com um balançar pesado do barco e barulho de ondas grandes lambendo o costado. Estranho...pelas minhas contas deveriamos estar dentro da baia Maxwell, próximo a estação Frei, mas não navegando. Levantei para o café e o vento estava em 45 nós (90 km/h) ! Com isso o navio não consegue ficar sob âncora e navegamos dentro da baia para manter posição. Não há notícias nem planos. Tinhamos que aguardar o desenrolar da meteorologia e ver o que vai acontecer.


Fiquei boa parte da manhã enrolado com tarefas de escritório (gravar pendrives, arrumar papéis, organizar o escritório) e ainda consegui dar uma adiantada na minha bagagem. Miguel e Adrian deram palestras e ficamos navegando dentro da baía Maxwell com vento e ondas fortes o tempo todo, quando então veio a notícia: avião levantando vôo as 11h30 ! tinhamos pouquíssimo tempo para nos organizar. Uma loucura. Ondas de 2 metros na gangway, vento de 80 km/h com rajadas de 90 km/h, 3 botes de bagagem, etc etc. Engoli alguma coisa e corri para a gangway para ajudar com as bagagens. Não havia muito tempo para pensar. Soquei o que faltava na minha mochila, me despedi rapidamente de alguns, e pulei no último zodiac de bagagens para a praia. O vento gelado castigava e realmente não sei como Vlad e Ben conseguiam dirigir naquelas condições. Fiquei na organização de passageiros na praia e depois de uma longa hora de idas e vindas de bote, arranjamos todos os 63 passageiros na praia. O avião já tinha descido e o novo grupo aguardava na pista para descer.


Foi duro se despedir, mas a adrenalina não deixava a emoção aflorar. Havia ainda muito trabalho pela frente. Abraços em todo o staff, meus companheiros guias de trabalho nestas 8 viagens loucas pela península, e logo em seguida comecei a subida dos passageiros até a pista, uma caminhada de 15-20 minutos. No meio do caminho encontrei o grupo descendo (e finalmente conheci por alguns segundos a Zelfa e o Gunnar!), despedidas com Pascale e Diana (membros da Antarctica XXI que iriam ficar a bordo do navio) e corremos para a pista e para o avião. Tivemos um pequeno atraso porque dois membros da empresa ainda estavam presos em Frei, guardando o carro que usamos lá para transporte, o que causou um pouco de transtorno, mas nada que não pudesse ser contornado.



Avião da DAP que iria nos levar de volta a Punta Arenas, tudo pronto para partir.


Bye bye Antártica as 15h00 em ponto, saindo de Frei rumo a civilização. Eu deixava naquele momento "Neverland", a Terra do Nunca, onde não pega celular, sem contas para pagar, sem preocupações, e voltava aos poucos para o mundo real. O vôo durou cerca de 2 horas, onde ainda cuidei de várias coisas: formulários de viagem, questionário de avaliação dos passageiros, botas, etc. Ainda tinha várias horas de trabalho duro pela frente. Chegamos a Punta Arenas no horário previsto e já pulei na frente de todos para organizar as bagagens e receber as botas (item da empresa que é emprestado para os passageiros). Brigitte, a gerente de vendas da empresa, estava no aeroporto para nos receber e organizar as necessidades de alguns passageiros. Dois ônibus nos levariam até a cidade, onde à princípio, a greve por causa do aumento no gás tinha acabado. Bem...nem tudo eram flores. A volta para a cidade, que normalmente dura 20 minutos, levou quase duas horas, porque o bloqueio realizado pelos habitantes locais, como protesto pelo aumento do gás, ainda estava se dissipando. Naquele mesmo dia tinham entrado em acordo com o governo, mas a situação ainda iria demorar para se normalizar.



Não era a Marginal em São Paulo, acreditem, era a entrada de Punta Arenas.


O congestionamento lembrava São Paulo, mas todos levavam numa boa. Nenhum passageiro ficou irritado e eu tampouco. No Hotel em Punta Arenas (Don Felipe), desembarcamos tudo, bagagem, roupas especiais, botas, equipamento da empresa, etc, e aos poucos fomos organizando cada passageiro em seu lugar, cada translado, cada partida. Tudo isso levou mais umas duas horas e saímos, eu e Brigitte, quase 9 da noite do hotel, rumo a pequena casa de hóspedes da empresa. Na passagem, paramos em um sushibar e encomendamos comida (sushiiiiii !!! oba !!), e antes das 10 da noite consegui estar de banho tomado e em processo de alimentação. Agora é cair na cama e dormir. Amanhã tenho ainda trabalho a fazer, contrato para encerrar e coisas para transportar. Bye Bye Antártica.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

08/01 à 13/01 - Classica Antarctica 06

08/01 - Parados em Frei

O dia começou tranquilo com um café da manhã tardio para os nossos padrões - 8hs da manhã. Não tinha muito o que fazermos. Havia uma programação de vôo para as 12 hs ainda sem confirmação e como tudo podia mudar rápido, Mariano decidiu que ficariamos por ali, com palestras e filmes, e pronto. Eu fiquei de arrumar a casa, o escritório, e organizar uma papelada de transferência de passageiros. A transferência ocorreu a uma hora da tarde. Engoli alguma coisa e corri para a "Gangway", a saída do barco, para pegar um bote para o transporte. Eu faria apenas uma lingada para terra com um grupo pequeno, e depois subiria a pista para receber os novos passageiros junto com Miguel e a turma da logística que cuida das bagagens. O avião chegou na hora marcada e de forma bastante simples começamos a descer com o grupo novo.


Avião com o grupo novo (e animado) chegando em Frei.

Cruzei no caminho com o grupo de nos deixava, e, obviamente rolou choradeira, abraços e beijos. Embora seja triste, também é um momento gratificante pois faço muitos amigos por aqui.

Subimos a bordo, separamos as bagagens, e voei para o banho pois eu tinha que dar a palestra de segurança a bordo logo em seguida. Fizemos o programa clássico, com o treino de abandono do barco, depois coquetel com o capitão, janta e filminho. O vento estava bem forte e bombou firme de proa. Metade dos passageiros desapareceu dentro das cabines, enjoados, e o doutor teve bastante trabalho. Sentei para jantar com ele e a esposa (que tinha vindo a bordo nesta viagem) e não teve sossego mesmo ! A cada 5 minutos vinha alguém pedir pílulas contra enjôo.

Não tinhamos muito mais o que fazer - iniciamos a navegação pelo Bransfield para estarmos cedo em Mikkelsen. nosso próximo destino.

09/01 - Mikkelsen (de novo !!) e Cierva

Não sei explicar porque mas não gosto de Mikkelsen. Acho um lugar desinteressante, mas está sempre dentro dos planos. Tomamos café as 07h30 já ancorados em Mikkelsen, e o odor de pinguins estava forte do lado de fora. Descemos na ilha as 9hs com a maré alta e cuidamos de fazer a trilha para o alto da ilha e depois para as pinguineiras mais abaixo. A maioria dos ninhos já estavam abandonados e vimos apenas poucos filhotes e muitos ninhos sem ovo algum. Este está sendo um verão muito duro para os pinguins daqui. Pela cor do guano, me parece que há menos krill do que o normal, e mais neve também. Com isso, há menos ovos e menos espaço também. Agora fiquei curioso para ver como será o próximo ano. Mas além disso, as skuas estavam bem nervosas. Afinal elas comem ovos de pinguim e filhotes, porque é mais fácil para elas. Como este ano há menos ninhos ativos, as skuas também estão ficando com fome.


Skua sobrevoando os ninhos e uma foto em close minha tomando um "bronze" em Mikkelsen

Ficamos na ilha até as 11h30, quando então subimos a bordo para o almoço. Ainda consegui "ter uma reunião com Amundsen" logo depois do almoço. (Deixa eu explicar: em código aqui, "ter uma reunião com Amundsen" é o mesmo que tirar uma soneca. Amundsen foi o primeiro explorador a alcançar o pólo sul em 1911, na corrida contra o inglês Scott, que acabou morrendo na volta do pólo. Esta é apenas uma curiosidade !). As 15hs peguei um bote junto com os outros guias e um grupo de passageiros em cada bote para um tour de Zodiac pela baía Cierva. O sol estava lindo e o tempo sem vento, e encontramos várias focas leopardo e caranguejeiras dormindo sobre blocos de gelo. Fantástico ! O dia acabou e entramos no programa noturno: janta e cinema antártico. Ainda fomos para o bar para uma confratenização entre os guias, civilizada, é claro ! e fui dormir pensando em Port Lockeroy, no nosso programa de amanhã.

10/01 - Port Lockroy, Lemaire, Peterman e Verdnasky (Ufa!)

Acordei umas 4h da manhã com o barco totalmente parado e motor desligado. Lockroy ? Sim ! provavelmente estavamos por ali, mas ainda era cedo e me enfiei mais fundo no cobertor e cochilei um pouco. As 7hs entrou o despertar de Mariano e logo a seguir um chamado no rádio. As meninas de Port Lockroy estavam vindo para tomar café e eu tinha liberado a minha cabine para um banho de uma delas. Me apressei (com Adrian) para arrumar um pouco a zona do quarto e fomos para o café. Elas chegaram e já se distribuiram pelas cabines que liberamos para uma ducha. No café fizemos o briefing de hoje: meio grupo de passageiros iria para Port Lockroy e o outro para Jugla Point, uma formação rochosa ao lado da ilha Wincke, onde se encontra Port Lockroy.


Port Lockroy em um dia ensolarado !

Na estação eu perguntei o paradeiro do Paratii e me informaram que eles tinham navegado para o sul, alguns dias atrás. Foi trabalhoso essa manhã: passageiros desgarrados entre os pinguins, carimbo em passaporte e transporte em Zodiacs. Na metade da manhã fui para Jugla Point onde fiquei cuidando de mais um grupo e as 11 hs embarcamos novamente para o sul. Toda velocidade - rumo Canal de Lemaire. O dia estava fantástico - sol forte e sem vento, até curti ficar de camiseta lá fora durante a travessia do canal de Lemaire.


Chegamos por volta das 14 hs na ilha Peterman para mais uma caminhada. Fiquei desta vez na parte norte da ilha, cuidando da área onde estão os ninhos de pinguins Adélie e Gentoos, bem como ninhos de Cormorão. Ainda encontrei um ninho perdido de um pinguim de barbicha, meio raro para essas bandas, e assim foi o passeio até as 17 horas, sob o sol forte e muita luz sobre a neve.

Voltamos para o barco mas nem tirei a roupa. Rumamos mais 30 minutos para o sul até as Ilhas Argentinas, onde desembarcamos em Verdnasky, a estação ucraniana. Ali estavam vários veleiros ancorados, e o mastro inconfundível do Paratii se sobressaia em Skua Creek, uma reentrância de pedras que os veleiros adoram usar como ponto de fundeio. Depois de deixar os passageiros confortavelmente instalados no bar de Verdnasky, e de entregar meu presente para o barman da estação (uma camiseta do Brasil), saí da estação e chamei o Paratii no canal 16. Quem me respondeu foi Igor, dizendo que estavam por ali com a turma da PL Divers e que iriam descer no dia seguinte para o sul, para Margheritte Bay. Foi bom falar com eles ! Não ficamos muito tempo por ali, pois teriamos o famoso churrasco antártico a bordo. E assim terminou a noite. Eu estava cansado, então logo depois do churras, tomei um banho e me enfiei na cama. Boa noite !



Pinguim com filhote em Peterman Island e o Paratii ao fundo de Skua Creek (O barco em primeiro plano é o Pelagic Australis).

11/01 - Paradise Bay e Danco Island

Acordamos no paraíso ! Eram 7h00 quando subi para o café da manhã em meio a icebergs com um céu azul magnífico de fundo. O dia estava maravilhosamente claro. Planos em prática, colocamos os zodiacs na água e fomos para um cruzeiro curto dentro da baía. Pelo visto a noite tinha sido fria pois uma fina camada de gelo cobria as águas paradas da baía, com vários blocos de gelo flutuando por todos os lados. Fizemos o programa clássico, com parada obrigatória nos ninhos de cormorão, sternas e petréis do cabo, e cruzei rápido a baia para o ponto onde haviamos visto o despencar do edifício de gelo na semana passada. O bloco maior estava por ali ainda e provavelmente, pelo tamanho, iria ficar muito tempo na baia antes de começar a se fragmentar em peças menores. Juntamos os botes as 10h15 para um chocolate quente e foto do grupo, e depois seguimos para a base argentina Almirante Brown, para o escorrega clássico na neve.


Grupo de passageiros nos botes tomando um chocolate quente em Skontorp.

Pontualmente as 12h subi a bordo com um grupo de passageiros e tomei um banho rápido antes do almoço. A tarde prometia com uma mudança de planos. Ao invés de irmos para Neko Harbour, Mariano decidiu mudar o rumo e fomos para Danco Island, próximos de Cuverville. Lá existe uma subida enorme e íngrime na neve, para colocar os pulmões para fora, e termina em um platô largo de neve milenar com uma pequena colônia de pinguins e um marco geodésico do departamento de hidrografia da marinha britânica. Ali o vento já estava um pouco mais forte e bem gelado, prometendo que a travessia do Bransfield dessa noite seria com algumas ondas.


A grandiosidade de Danco com o canal Herrera ao fundo.

As 18hs levantamos âncora de Danco e seguimos pelo canal Herrera até a entrada de Gerlache. dali o rumo é sempre norte, até Deception, que iremos visitar amanhã. Eu estava bem cansado e não tive muitas opções a não ser comer e dormir. O dedo só incomoda quando esqueço dele por completo e tento fazer alguma coisa estúpida como levantar um bloco de gelo da água ou puxar o bote. O doutor ainda acha que sou maluco e deveria ser internado (hehe), mas estou usando a contenção de alumínio para proteger o dedo e tenho tomado "um pouco"de cuidado. Bem, não há muito o que fazer. Bons sonhos nas águas do Bransfield.

12/01 - Deception e Yankee, tudo em um liquidificador.

Deception é sempre uma supresa. Foram 3 dias de sol, calor e ausência de vento, e obviamente isso não iria durar para sempre. Acordamos em Deception com 35 nós de vento (70 km/h) com rajadas de até 80. O tempo incoberto e o vento norte anunciavam um mega ciclone acima das nossas cabeças ali pelo Drake. Dentro da ilha, o navio brasileiro "Almirante Maximiliano" também se escondia do mau tempo. Ainda assim, Mariano decidiu colocar os botes na água e ver no que dava. O vento mau deixava a gente se movimentar e por questões de segurança fizemos um desembarque mais curto. Fiquei com o segundo grupo perto dos tanques abandonados da ilha e conseguimos nos aproximar um pouco da casinha abandonada inglesa que tem por ali. A toda hora tinhamos que tirar areia dos olhos, pois o vento não dava trégua. Ainda assim, um pouco antes de voltar ao barco, um casal de corajosos canadenses pulou na água para o banho antártico. Foram os únicos !


Casa inglesa abandonada em Deception. Com o vento, pedaços sempre voam dali.

Ao sairmos de Deception o vento mandava ondas de 5 metros pelo costado, o que fez o barco balançar muito e nocauteou metade dos passageiros. O almoço foi tranquilo mas vazio. Comi rápido e fui separar o filme da tarde. A previsão de chegada ao nosso próximo destino era 5 horas da tarde, Yankee Harbour, na ilha Greenwich. O vento fazia com que o barco andasse devagar e por isso a travessia seria mais longa que de costume. Melhor para mim: separei o filme e cai na cama para dormir. Estava cansado demais para ficar acordado. Foi ótimo ! consegui dormir a tarde toda. As 5hs em ponto chegamos a Yankee e descemos 4 botes com alguns passageiros. Outros ainda se recuperavam do mar pesado do dia. Yankee é um esporão de rochas com uma pinguineira grande de papuas (uns 6 mil pinguins). Havia pelo menos uma centena de skuas famintas pela volta tentando conseguir alguma comida, e os filhotes de pinguins corriam de um lado para outro, já meio grandinhos para ficar nos ninhos. Ficamos ali até umas 18h30 e depois subimos a bordo para a janta de despedida.


Pinguineira de Yankee Harbour em um típido dia antártico (neve, vento e frio!).

Este grupo vai embora dia 13. Por isso, era hora de finalizar a viagem com a festinha de despedida. Jantar, concurso fotográfico no Lounge e um batepapo descontraido no bar. Isso até o navio começar a se mover para Frei e o mar pesado chacoalhar tudo. Metade foi para a cama e eu ainda consegui arrumar o escritório antes de cair de sono.

13/01 - atualização: chegamos a Frei de madrugada e o vento não deu trégua. Estamos ancorados na baía em frente a Frei, com os motores ligados, pois o vento empurra o navio para terra. Tem um yatch de luxo aqui ao lado na mesma situação. Ainda é cedo, 6h00, e acordei para atualizar o blog e conversar com minha mãe. A previsão é de que teremos vôo no final da manhã, mas não estou acreditando muito nisso. O tempo não está fácil !


sábado, 8 de janeiro de 2011

03/01 à 08/01 - Classica Antarctica 05

03/01 - troca de grupo

O dia amanheceu com o céu meio incoberto, mas com algumas aberturas azul longe dentro da baia Fields. Entramos no ponto de fundeio na hora programada, no meio do café da manhã. Eu estava cedo no Lounge tentando uma conexão estável de internet e em pouco tempo atualizei as fotos e o blog, falei com a minha mãe e depois fui cuidar das tarefas diárias de bordo. As 10hs fui para Ardley Island com um grupo para ver o estado dos pinguins e caminhar pela praia. Mariano ficou a bordo organizando o translado de passageiros pois naquele dia chegaria mais um vôo. O passeio foi tranquilo, e soubemos que o avião estava a caminho e que provavelmente iriamos transportar os passageiros diretamente da ilha Ardley para a praia em Frei, onde pegariam o avião. Foram dois grupos de 20 e tantos passageiros, com uma hora e meia de passeio. Por volta das 12hs tomamos um susto: o "imbecil" (o termo é este mesmo !) do piloto do avião jato da DAP, a empresa que faz os vôos para a Antártica, passou sobrevoando a ilha em um vôo muito baixo fazendo um caos entre os pinguins da ilha com o barulho das turbinas. A noite fiz um relatório que vai ser enviado para a empresa pois sei que os aviões não tem permissão de sobrevôo (droga!). Vi vários pinguins correndo assustados e alguns filhotes caindo dos ninhos. Fiquei revoltadíssimo !


Ardley Islando (e eu ainda sorrindo antes do avião estragar tudo), e o avião na pista com os passageiros novos.

Saímos com todos os passageiros para Frei, juntando o grupo, e rapidamente Miguel e eu subimos até a pista para receber os passageiros novos que estavam chegando. Afinal, descobri que o avião que fez o sobrevôo na ilha era outro vôo, para um outro grupo, mas mesmo assim entreguei o relatório a noite para os responsáveis da empresa. Descemos com o grupo novo (com dois brasileiros neste!) e fomos direto para o navio. Fiz duas corridas de bote entre a praia e o navio, e corri para o banho, para me preparar para o Safety Briefing a bordo. O grupo era grande - 64 passageiros, e zarpamos rápido para a península, para aproveitarmos o tempo bom. Infelizmente o doutor (Sérgio) foi embora com o grupo e chegou um novo doutor (Alvaro) que ficou impressionado com o fato de eu estar cuidando do dedo fraturado de maneira tão simples (hehe na verdade ele ficou meio consternado porque achou que era mais grave), mas o dedo está muito bem, não está doendo tanto, e tudo vai bem (obrigado!) embora ele me chame de maluco várias vezes.

Depois da janta subimos ao Lounge para batepapo geral e aos poucos os passageiros foram desaparecendo para suas cabines. Fiquei um pouco saudoso de casa pois uma das passageiras se chama Sophie e tem 7 anos, a mesma idade da Mariana. Uma graça. Fui dormir as 23hs, cansado mas bem tranquilo. Afinal, começava mais uma expedição, a de número 5 nesta temporada.

04/01 - Mikkelsen (de novo!) e Cierva Cova

Acordei com o balanço gostoso do barco em uma curva suave, provavelmente quando trocava de rumo ao redor da Ilha Trinity. Olhei no relógio e eram 6h30. Faltava pouco para o "wakeup call" de Mariano as 7hs e eu estava ainda meio sonolento. Na verdade quem me fez levantar foi meu estômago, rocando de fome. Tomamos café já fundeados na baia de Mikkelsen, com um tempo feio, cinza, nebuloso mas pelo menos sem ondas e sem vento. Baixamos na Ilha Mikkelsen as 9hs com 3 botes e um pouco de chuva, e desta vez fomos nos organizando em grupos e avançando pelo interior da ilha. Me surpreendi muito com a ausência (ainda) de filhotes, o que reforçava a teoria que estava bolando com Miguel, que a precipitação excessiva neste verão e as temperaturas mais altas desta parte da península provavelmente afetaram o modo de alimentaçäo dos pinguins por aqui. Com menos comida, demoram mais para chocar os ovos. No topo da ilha vimos apenas um ninho com filhote (de 2 dias no máximo), e as skuas estavam também bem famintas. Vimos vários ataques e roubos de ovos em apenas 2 horas na ilha. Haviam também algumas focas na praia e a neve tinha derretido ao ponto de podermos ver a estrutura de uma velha baleeira soterrada. Ainda tive tempo de brincar um pouco com a Sophie na praia. Ela adora pinguins, como a Mariana, e prometi colocar as duas em contato quando voltasse para o Brasil.


Mikkelsen com um tempinho horroroso.

Saimos de lá por volta das 11hs e seguimos durante o almoço para Cierva Cove, onde estávamos programados para um tour de Zodiac pela baia. Dividimos os grupos, coloquei meu gorro de pinguim para dar sorte e partimos (Alex e eu - dois botes) para dentro da baia, onde eu sabia que poderiamos ver algo de interessante. Não deu outra. A foca leopardo que vimos outro dia por ali estava ainda deitada sobre o mesmo bloco de gelo, dormindo. Ela devia estar dormindo a uns 3-4 dias, como de costume destes animais. Ainda seguimos adiante para a "baia das Skuas", um lugar protegido no fundo da geleira onde várias skuas tem o costume de sobrevoar os botes. Voltamos depois de duas horas de passeio, com os passageiros meio congelados mas alegres, afinal vimos mais uma foca leopardo em outro bloco de gelo.


Foca leopardo dormindo tranquilamente em um bloco de gelo em Cierva.

O dia foi tranquilo e de relax, e terminou de forma grandiosa. O alerta de baleias chegou bem no final da janta. Várias jubartes na área e algumas saltando completamente fora d'água. Fantástico ! Hoje devo dormir cedo pois amanhã estaremos mais ao sul da península, e quem sabe, tentando entrar de novo no canal de Lemaire.

05/01 - Verdnasky, Peterman island and Barbecue

Rotina diária: despertar, café da manhã e Briefing. Estávamos ancorados na frente de Verdnasky, a base ucraniana nas Ilhas Argentinas, ao sul do Estreito de Lemaire, que atravessamos em meio a um nevoeiro cerradíssimo. A idéia era baixar os passageiros em dois grupos: o primeiro iria para Wordy`s House, uma construção inglesa recém restaurada no meio de umas das ilhas, e o segundo para a base ucraniana. Eu fiquei com o segundo grupo, organizando o pessoal em terra e coletando os passaportes de todo mundo para carimbos. Mesmo com todo o trabalho ainda deu tempo de visitar o "bar mais ao sul do planeta", onde se toma vodka feita na estação por 3 US$ ou, se for mulher, é só deixar o sutiã na "coleção de sutiãs da estação" (haha). Parece piada mas não é, e a idéia do bar é no mínimo curiosa: Verdnasky na verdade era uma base inglesa, abandonada na metade do século passado e que foi vendida para os ucranianos por 1 libra (que inclusive está fincada na madeira do bar). O bar foi construido por dois carpinteiros ingleses que deveriam ter construido um telhado durante um dos invernos na estação, mas como o tempo estava feio e o inverno rigoroso, decidiram ficar dentro da estação e fizeram um excelente trabalho construindo um pub inglês. A tradição dos ucranianos então se estabeleceu, de que homens pagam pela vodka, mas as mulheres, se deixarem o sutiã, levam de graça. Uma comédia.


A entrada de Verdnasky e Miguel e eu no bar (veja a coleção de Sutiãs atrás da gente!).

Saímos de Verdnasky um pouco antes do almoço e durante a comida movimentamos o navio um pouco mais para o norte, para a ilha Peterman, a colônia mais ao sul de pinguins gentoos (que não acredito muito!). Ficamos por ali umas duas horas e meia. Foi bem trabalhoso pois a ilha é grande e havia passageiros para todos os lados, mesmo com o caminho delimitado por bandeiras. Que sufoco.

Voltamos para bordo e movimentamos o navio mais uma vez, para a baia Plenneau, ao final do canal de Lemaire. Ali descemos mais uma vez os botes e saímos por uma hora para explorar o cemitério de icebergs. A posição das ilhas favorece a entrada de icebergs que acabam encalhando por ali até degelar. Eu segui com o meu grupo para dentro do cemitério, contornando a ilha até chegarmos a Port Charcot, onde o capitão frances (Charcot, obviamente) invernou pela primeira vez com o barco "Le France". Ficamos rodando por ali por uma hora até voltarmos a bordo para a janta surpresa - churrasco ! regado a cerveja e música. Diz a lenda deste churrasco que Mariano comeu 14 pedaços de costela ! Eu comi uns 4 steaks e perdi a conta das linguiças a moda germânica. Fiquei conversando com Luiz Fernando e Maria Flávia, os brazucas que vieraram ver o branco antártico. Ainda teve um pouco de festa no Lounge com dança e tudo mais, mas o cansaço me venceu e fui dormir de barriga cheia.


Os 3 patetas: André, Alex e Miguel e uma foto de Sophie no churrasco Antártico.

06/01 - Baía Paraiso e Neko Harbour

"São 7h e o dia está maravilhoso lá fora". Foi assim que acordei, com o chamado de Mariano no sistema de som. Embora estivesse com sono, acordei um pouco mais animado porque pela manhã iriamos fazer um cruzeiro de zodiac e eu adorava isso ! 9h em ponto saímos. Peguei um bote com o motor bem forte, uma familia de americanos, um casal holandês e um casal brasileiro (eh que legal !). Rodamos pela baia por cerca de uma hora, entre pedaços de gelo e um céu meio coberto e meio azul. Algumas focas dormiam em uma pequena praia entre as geleiras, e seguimos assim bem tranquilos. O plano era voltar para perto do barco e desembarcar na base argentina de Brown por volta das 10h30, que fica na beirada da geleira Skontorp. De longe, vimos um movimento na base da geleira, de pássaros voando ao redor de um bloco de gelo, e decidimos das uma olhada antes de seguir com os planos de desembarque. Havia uma foca na água e preparei minha câmera para fazer um filme um pouco mais perto dela. Ficamos por uns minutos perto da base da geleira, cerca de 300 m dela, observando, quando de repente um pequeno pedaço despencou na água fazendo bastante barulho. Que legal ! foi o grito geral, mas dai, mais pedaços cairam e um bloco gigante se desprendeu da geleira. Como um arranha-céu, subiu flutuando livre da geleira, mais de 70 metros de altura, e o peso do gelo fez com que a estrutura inteira entrasse em colapso com um barulho enorme e uma onda de uns 3 metros de altura, um mini-tsunami. É óbvio que nessa hora eu estava apontando o nariz para fora da baia, e quando vi o tamanho da onda, dei gás no motor e saímos a jato fora do alcance das ondas. Eu consegui manobrar o bote enquanto filmava o bloco imenso de gelo se desintegrando na água. Que coisa mais incrível ! Depois da adrenalina inicial, o delírio foi geral. Que sorte que estávamos no lugar certo e na distância certa.


Paradise Bay com o Ocean Nova ao fundo.

Seguimos ainda meio bêbados de alegria para a base Brown, onde subimos na pequena montanha de neve atrás da estação para depois descer em um famoso "ski-bunda", ou seja, escorregando pela neve. Voltamos logo em seguida para o navio, para o almoço, com os argentinos da base como convidados, e zarpamos as 13hs para Neko Harbour. O dia estava claro, céu azul, sem vento e temperatura altíssima, na marca dos 5 graus ! Na praia, logo no desembarque, já tirei o casaco e andei pelo caminho até a pinguineira só de camiseta - que calor ! os pinguins estavam todos de bico aberto e lingua de fora, posição que normalmente fazem quando está quente. Os passageiros, em sua maioria, subiram para o alto do morro e eu fiquei no meio do caminho para controlar o fluxo e também porque queria ficar observando a geleira de Neko, que é bastante ativa. Consegui filmar mais dois desprendimentos de gelo, que varreram a praia com uma onda de um metro. Desci para a praia com alguns passageiros, aguardando os botes de transporte, e aproveitei o momento para filmar uns pinguins dentro d'água. Um barato !


Calor em Neko. De camiseta perto da pinguineira.

Voltamos para o navio as 18h, já em ritmo de banho: "Polar Plunge". Corajosos e destemidos passageiros saltaram nas águas geladas de Neko. Até a Sofia, uma menina de 7 anos que dirige zodiac muito bem, pulou na água gelada !

Jantar dado, banho tomado, agora é hora de dormir porque amanhã temos Deception !

07/01 - Deception e Hannah Point

Lá pelas tantas da madrugada acordei batendo a cabeça no armário que fica do lado da cama. O barco estava rolando bastante e parece que brigava unm pouco com as ondas. Olhei no relógio e eram 5h30 da manhã. Deviamos estar a umas 15 milhas de Deception mas nem me preocupei muito pois podia ficar na cama um pouco mais. O despertar veio pontualmente as 7hs com as informações de Mariano sobre o tempo ensolarado mas com muito vento, e a entrada eminente pelos Foles de Neptuno, na Ilha Deception. Tomei café rápido e fui a ponte de comando para ver a situação: ventos de 25 nós (50 km/h) e um sol forte, entre poucas nuvens. Nem sinal de vapor na praia, resultado de fumarolas e água quente que flui da terra em direção a praia. Dividimos os passageiros em dois grupos. O primeiro e maior grupo, fez uma caminhada de uma hora mais ou menos, subindo a borda da cratera externa e com uma visão previlegiada da ilha. O segundo e menor grupo ficou comigo e com Adrian, para explorarmos as ruinas da ilha.


Baleeira de transporte em Deception (com quase 100 anos de idade).

Apesar do vento forte, conseguimos fazer um tour bem interessante e demorado por todas as ruinas. Lá pelas tantas captamos o sinal de rádio do pessoal que subiu a cratera e me parece que o vento estava bem forte por lá. Sorte nossa que ficamos aqui embaixo. Em duas horas já estávamos prontos para voltar ao barco e saborear um delicioso almoço. Logo depois da comida, dei minha palestra sobre trocas climáticas globais enquanto seguiamos para Hannah Point, ao sul da ilha Livingston.


Elefante marinho em Hannah Point.

O mar não estava para peixe: swell de mais de 3 metros e uma dificuldade enorme de desembarcar na praia. Mariano me pediu para colocar o "sapão", o impermeável para ajudar os passageiros a descer na praia, que por sinal estava lotada de elefantes marinhos, barulhentos e fedorentos. Complicado ! O grupo ficou meio disperso no início e tive que gritar com alguns para colocar ordem na casa. Aos poucos fomos entrando nos eixos, e as coisas foram ficando dentro dos parâmetros de controle. Eu estava meio irritado pois além da bagunça, meu sapão tinha um furo e me deixou "meio" molhado. Foram umas duas horas de tour pela praia com elefantes por todos os lados. Na volta ainda pegamos um mar bravo mas deu para controlar o barco e a molhadeira antes de entrar no navio. Tomei uma ducha quente e fui correndo para o Panorama Lounge para a apresentação final. Este grupo irá embora amanhã e outro entra em cena. Logo depois da janta tivemos uma confratenização a bordo e enquanto batia papo, trabalhava na cópia de dados em pendrive que os passageiros recebem, bem como organizava os documentos para a troca de passageiros no dia seguinte - trabalheira !!!

Agora são quase meia noite e estamos chegando em Fields. Irei apenas baixar esse post do blog e vou dormir. Amanhã quero estar pronto para o trabalho logo cedo. O dia vai ser cheio.
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Atualização: 08/12 - Ficamos de manhã no navio, com palestras e filmes, esperando por notícias. O avião chegou as 14 hs e a transferência foi rápida. Fiquei o dia todo operando bote, ajudando nas bagagens e controlando a papelada normal de dia de transferência. Voltamos ao barco as 16 horas com um grupo novo de passageiros, das mais variadas nacionalidades. Tive tempo apenas para um banho rápido pois as 17 horas já iniciamos o Briefing de segurança. Agora vamos levantar âncora para mais uma viagem rumo a península, a Classica Antarctica 06. Até o dia 13/01 !